Chegou a hora de aposentar a habilitação?

Por Rosa Maria Paulino

Todo mundo se lembra do momento em que recebeu sua carta de habilitação e do passo que isso representou em direção à idade adulta. Décadas mais tarde, um outro rito de passagem está à espera, desta vez sem grandes comemorações ou entusiasmo: o momento de parar de dirigir.

A maioria das pessoas sabe quando esse momento se aproxima e, mesmo que relutante, aposenta as chaves do carro ou faz ajustes em seus hábitos de direção. Algumas pessoas, entretanto, insistem em manter suas mãos no volante, independente da quantidade de buzinas, dos pequenos acidentes de percurso ou do aumento na frequência com que se perdem na cidade. Afinal,

deixar de dirigir é uma decisão difícil. As pessoas temem perder sua autonomia e a capacidade de continuar suas atividades rotineiras, como fazer compras, ir ao dentista ou visitar os amigos.

 

Antes de decidir que está na hora de seus pais aposentarem as chaves do carro, pegue uma carona com eles - eles podem estar se saindo melhor do que você imagina. Você também pode pedir a avaliação de um terapeuta especializado.

Muitas vezes, a pessoa está apenas começando a apresentar algum tipo de dificuldade e não será necessário parar de dirigir totalmente. Ao invés disso, é possível chegar a um acordo para evitar as situações de maior risco, como dirigir em rodovias ou vias expressas, em horários de pico, à noite ou longe de casa.

 

Há situações, porém, em que a deterioração da capacidade de dirigir é inconfundível. Alguns sinais são indiretos, como aumento no prêmio da seguradora, no número de multas de trânsito ou na frequência de pequenos danos à pintura ou lataria do veículo. Outros, entretanto, só podem ser observados pessoalmente. Alguns sinais de que é preciso lidar com a situação:

 

  • Dirigir em velocidade significativamente acima ou abaixo da recomendada para as condições

  • Dirigir de modo inseguro ou errático (ultrapassar a faixa de pedestres, passar no semáforo vermelho, se assustar com a aproximação de outros veículos)

  • Erros no julgamento da distância dos objetos

  • Demora para reagir às situações (demora para freiar ao ver um pedestre atravessar a rua, por exemplo)

  • Dificuldade na coordenação dos movimentos do pés e mãos ou confundir os pedais do acelerador e do freio

  • Dificuldade em enxergar pedestres, sinais de trânsito ou placas de sinalização – normalmente mais frequente à noite

  • Falta de concentração

  • Dificuldade para estacionar (manobrar o carro em uma vaga de estacionamento abrange várias habilidades envolvidas no ato de dirigir)

  • Cansaço ou estresse excessivo depois de dirigir

  • Uso de medicamentos que interfiram com a capacidade cognitiva ou motora

  • Dificuldade em se lembrar do caminho de casa ou para onde estava indo

 

Prepare-se para conversar sobre o assunto. Faça perguntas, ao invés de chegar com um plano já pronto. Saiba quais são os recursos disponíveis para minimizar os efeitos que parar de dirigir terá sobre o estilo de vida de seus pais. Alguém da família pode se colocar à disposição quando eles precisarem? É possível contratar taxistas de confiança? O transporte público pode ser uma opção segura?

 

Negociar um meio-termo com um motorista resistente pode ser um ponto de partida para lidar com a situação. Algumas opções a serem discutidas:

 

  • Dirigir somente de dia

  • Utilizar apenas rotas conhecidas

  • Limitar as viagens de carro a uma certa distância da casa

  • Evitar rodovias e vias expressas

  • Evitar os horários de pico do trânsito e os cruzamentos mais movimentados

 

Uma outra forma de abordar o assunto sem colocar seus pais na defensiva é se  focar no aspecto da saúde e pedir a eles que concordem em passar por uma avaliação médica antes de voltarem a dirigir. Fatores físicos como a visão, audição ou outras condições que interferem com a habilidade de dirigir podem ser facilmente avaliadas por um médico.

 

Você também pode utilizar o argumento econômico: compare o total de quilômetros rodados por ano com os custos envolvidos na manutenção do veículo: amortização, licenciamento, seguros, combustível, lavagens e manutenção. Compare o rendimento gerado por esse valor, caso ele fosse investido, com os custos de utilização de taxis para a locomoção.

 

Legalmente falando, suas opções são limitadas. Algumas famílias apelam para medidas mais drásticas como esconder as chaves do carro, vender o veículo ou retirar sua bateria para que não funcione. Essas soluções são desrespeitosas e não levam em consideração os sentimentos das pessoas envolvidas. Seu uso só se justifica em casos extremos e devem ser tomadas com o apoio de toda a família.

 

Dirigir é uma atividade importante que contribui para a autonomia, socialização e auto-estima das pessoas - fatores essenciais para o envelhecimento saudável. Tenha isso em mente quando conversar a respeito do assunto. Deixe seus pais saberem que você está do lado deles; enfatize sua preocupação com a segurança deles e a dos outros nas estradas e pergunte como podem resolver essa questão em conjunto.

 

Esta é uma das conversas mais difíceis que filhos adultos precisam ter com seus pais. A maioria dos motoristas mais velhos decide reduzir o ritmo ou parar de dirigir por conta própria, mas se seus pais não fizerem parte desse grupo, é seu papel conversar com eles para chegar a uma solução que garanta a segurança de todos.

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