As crianças se foram...e agora?

Por Rosa Maria Paulino

A instituição do casamento não é mais a mesma...será que está na hora de se repensar alguns aspectos tradicionais do casamento, como o “até que a morte nos separe”, por exemplo?

 

Durante séculos, uma das principais premissas do casamento era a reprodução e a perpetuação da espécie. E nesse aspecto, continua sendo - a criação dos filhos sob os nossos olhos ainda é uma circunstância primordial do casamento. Mas esse foco ocorre apenas nas primeiras décadas de um relacionamento. Quando o trabalho de criar os filhos se encerra, a preocupação principal dos casais mais velhos é o bem estar do parceiro. Casais que vivem juntos há décadas, normalmente já aprenderam a resolver seus conflitos e este novo estágio da vida, depois que os filhos se foram, representa um recomeço para o relacionamento. Para outros, porém, o casamento pode ter se transformado em uma sequência de dias sem graça e monótonos.

 

Muitos casais descobrem que o que segurava o casamento eram os filhos e que o papel de pai e mãe - e não o de esposo e esposa - é o que fazia a relação funcionar. Sem os filhos em casa, essa estrutura deixa de fazer sentido e não há muita coisa para por em seu lugar. As mulheres são responsáveis pela maior parte dos processos de separação. E o adultério não parece ser o principal motivo de divórcio entre casais mais velhos. Afinal, o que está acontecendo com os casais grisalhos?

 

Uma das razões para essa tendência é o aumento da longevidade. Quando olham ao redor para o ninho vazio e vislumbram décadas de vida saudável pela frente, um número cada vez maior de pessoas está decidindo que já cumpriram a obrigação de pais e agora querem cuidar de sua própria vida. Um advogado do direito civil relatou que foi procurado por um homem de 83 anos que queria se divorciar da segunda esposa, de77 anos. Esse cliente queria terminar o seu segundo casamento de 19 anos porque, conforme disse, “não queria viver o resto de sua vida casado com ela”.

 

Isso está mudando o conceito do tradicional voto de “até que a morte nos separe”, já que muitos casamentos que no passado terminariam com a morte, agora terminam em divórcio. A verdade é que muita gente simplesmente não vivia o suficiente para chegar à crise dos 40 anos de casados. Mas essa não é a única razão. A maioria dos sociólogos aponta que esta geração entrou no casamento com expectativas muito diferentes das gerações anteriores.

 

No início do século passado, o casamento era visto como uma união econômica. Mais tarde, depois da Segunda Guerra Mundial, o conceito de companheirismo passou a ter prioridade, e cada cônjuge tinha um papel definido na união: os maridos eram avaliados quanto à sua capacidade de prover as necessidades da família, enquanto as esposas eram avaliadas quanto às suas habilidades domésticas e maternais. A partir da década de 70, pela primeira vez o casamento passou a ser visto como a oportunidade de cada um preencher suas necessidades pessoais e as pessoas passaram a se ver como indivíduos e não apenas como pais ou como esposo e esposa.

 

Para quem chega à meia-idade, a síndrome do ninho vazio pode desencadear pensamentos de mortalidade e a percepção de que as oportunidades de realização pessoal estão diminuindo. É natural que uma pessoa infeliz no casamento, ao se imaginar viver por mais 20 ou 30 anos, acabe se perguntando se quer passar esse tempo ao lado do parceiro. Para essas pessoas, há um sentimento de urgência, de que precisam fazer algo a respeito agora, ou nunca mais terão a chance de fazê-lo. Mas muitas pessoas que optam pelo divórcio nesta fase da vida, não avaliam todas as suas consequências.

 

Alguns aspectos precisam ser cuidadosamente analisados no momento da separação, entre eles alguns de ordem econômica e tributária. O período de criação de patrimônio ficou para trás e a previdência social tem regras rígidas para pagamento do benefício, portanto é preciso cuidado ao avaliar e tomar decisões relacionadas aos bens do casal. É preciso rever os beneficiários de apólices de seguro e planos de previdência privada, por exemplo. Existem ainda uma série de questões de ordem prática, social e emocional que precisam ser resolvidas entre as duas partes. As mulheres tendem a se queixar de aspectos econômicos, os homens, do contato reduzido com os filhos. Ainda assim, muitos divorciados se consideram felizes.

 

Embora “ficar sozinho” seja o principal receio entre homens e mulheres, para quem não conseguiu continuar casado, são grandes as chances de encontrar um novo parceiro ou parceira. A oferta de atividades sociais, culturais, esportivas e de lazer direcionadas a pessoas mais velhas tem evoluído consistentemente e nos sites de relacionamento, o número de usuários com mais de 50 anos é o que mais tem crescido.

 

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